«É isso que explica que seja best-seller na Holanda, apesar de ser um livro crítico dos holandeses? Os holandeses têm uma atitude diferente em relação à crítica. Quando são criticados, não vão insultar o crítico, mas antes ler e pensar: porque é que este sujeito diz isto de nós? Não o vêem com maldade, antes como um contributo para tornar a imagem do cidadão ou do país mais nítida ou descobrirem outro ponto de vista que não conhecem. É uma marca de civilização.»
A homeopatia é curiosa e até simpática: os homeopatas são calmos e ponderados, usam métodos menos invasivos do que os médicos, conversam mais, têm um certo ar de sabedoria (talvez oriental).
No entanto, para funcionar, a homeopatia precisa que as moléculas de água tenham memória. Ora, como me parece mais ou menos óbvio, tal implica que estes medicamentos não têm qualquer impacto real. De facto, quanto mais fiáveis são os testes clínicos aos medicamentos da homeopatia, mais se compreende que o efeito é só um: o efeito placebo (ou seja, o mesmo efeito que medicamentos "vazios" teriam nas pessoas convencidas que estavam a tomar medicamentes verdadeiros).
A única vantagem que me parece real é a falta de agressividade dos medicamentos. Pudera! São pouco mais que água.
Claro que haverá sempre quem diga: «mas resultou comigo!» A explicação é simples: o efeito placebo é real e, para além disso, o próprio acaso ocupa-se de curar uma certa percentagem de doentes. É uma questão estatística, não clínica. Para além de que os conselhos dos homeopatas (dieta, exercício, ponderação, etc.) poderem ter um efeito por si só.
Ninguém deve ser proibido de aceder a esta medicina alternativa (um conceito estranho: se alguma coisa funciona de forma comprovada, torna-se medicina, ponto final). Mas também não me parece correcto que o Estado apoie este tipo de medicina (como acontece em Inglaterra) — no dia em que os homeopatas provarem que há um efeito real e vantajoso (o mesmo critério para qualquer medicamente), então sim. Por muita gente acreditar, uma coisa não se torna verdade. Neste caso, a responsabilidade deve ser inteiramente da pessoa que procura estes especialistas: deve poder fazê-lo, mas por sua conta e risco e de forma o mais esclarecida possível.
O que têm em comum as lojas dos chineses, a Dr.ª Dra Rauni Kilde e a Sr.ª Susana Dutra?
Vamos começar por Susana Dutra. Há uns meses recebi um email, daqueles que «toda a gente recebe», onde se afirmava de forma indignada que a filha do ministro Alberto Costa tinha sido escolhida para manter o site do Ministério da Justiça por 3000 euros por mês. Como prova, apresentava-se a seguinte imagem:
Ora, o que está mal neste caso? Bem, Susana Dutra não é filha do ministro. Procurem um pouco na net, encontrarão vários blogues indignados com o caso, cheios de pontos de exclamação, e alguns, singelos e verdadeiros, desmentidos. Como a pessoa nomeada tem um azarado Costa no nome, pronto, lá ficou como prova do eterno compadrio português. O compadrio até pode existir, o exemplo é que é falso. Obviamente, o desmentido, por ter muito menos indignação por metro quadrado, está enterrado na página de resultados do Google.
Agora, o caso da ex-ministra da Finlândia que, segundo um email que anda por aí e segundo o YouTube, «diz a verdade sobre a Gripe A» (uma das muitas conspirações que por aí há sobre a gripe). Vejam o arrazoado da senhora: a vacina é uma conspiração para matar parte da população mundial (porque é giro).
Obviamente, quando há pessoas com medo da gripe, outra com medo da vacina, as palavras podem soar vagamente ameaçadoras e com alguma verdade (afinal, onde há fumo, há fogo, certo?). Mas não se trata de desmentir a verdade das palavras da ministra. A questão é: será que esta senhora foi mesmo ministra da Finlândia? Bastam 30 segundos de investigação no Google para perceber que o título é patranha. Demora mais tempo a ver o filme do que a perceber quem de facto é a senhora.
Passemos ao caso das lojas que cheiram a plástico, vulgo «lojas dos chineses». Já ouvi muitas vezes que as lojas dos chineses têm isenção de IRC durante cinco/seis anos. Obviamente, os chineses, ao fim desse tempo, continuam a aproveitar a isenção, mudando a propriedade da loja. É tão óbvio que só não vê quem não quer, certo?
Nunca liguei muito à história, mas sempre a achei estranha. Por que razão haveriam os portugueses de dar esta isenção aos chineses? Não será levar o incentivo ao investimento longe de mais? Há uns anos ouvi a explicação, não sei de quem: tínhamos permitido tal isenção em troco da abertura do mercado chinês aos vinhos portugueses. Acabei por aceitar, talvez ingenuamente. Não me parecia assim tão injusto.
Ora, hoje, depois de ter ouvido a história de novo da boca duma amiga minha, tentei perceber de facto quais eram os termos do acordo. Procurei no Google pela legislação em que se baseasse a isenção do IRC para comerciantes chineses. Afinal, algo que desperta tanta indignação há-de ter a fonte legal em imensos sítios, certo? Pois, vejam lá bem: não encontrei nada. O que me apareceu foi uma série imensa de blogues indignados com a tal isenção, sem que a mesma apareça em nenhum documento ou legislação oficial. Pelos vistos, se há chineses que não pagam IRC, fazem-no ilegalmente, como muitos portugueses. O mais provável é que a isenção não exista.
O engraçado é que, quando alguém discute a questão, apresenta como base legal da suposta isenção o acordo para evitar a dupla tributação entre Portugal e a China (um acordo igual ao de tantos outros países, que serve para evitar que uma pessoa pague impostos a dobrar); depois, como se isso bastasse, diz-se que quem quiser ler que leia. Pois, eu li e lá não aparece nada parecido com uma isenção do IRC durante seja que período for. Talvez até exista noutra lei qualquer que os lojistas chineses encontram mas o Google não. Seja como for, quem fala da dita isenção é que deve tentar provar (se eu me lembrar de dizer que há uma lei que diz X, não são os outros que têm de ler todas as outras leis para perceber que estou enganado, sou eu que tenho de dizer qual é). Em suma, parece-me provável que a história da isenção chinesa seja uma patranha, até porque também apareceu em Espanha nos mesmos moldes (vejam a "Mentira n.º 1" aqui). Está na onda da história do português que ficou sem órgãos nas traseiras duma loja chinesa.
Podia continuar por aí fora. Há quem acredite piamente que Miguel Sousa Tavares disse que os professores são «a cambada de inúteis mais bem paga do país». Nunca disse, mas por causa disso viu um dos seus livros em distribuição livre na Internet (estas mentiras não são tão inócuas como parecem). Enfim, nos países árabes a teoria da evolução é uma conspiração ocidental; na Espanha, há imensas teorias sobre as escolas catalãs; nos Estados Unidos, há quem acredite que a Terra é plana e que quem diz o contrário está sob o efeito duma conspiração mundial duns quantos malvados que querem fazer crer aos inocentes que a Terra é redonda.
O irónico é que estas histórias acabam por nos fazer passar ao lado dos problemas: da evasão fiscal verdadeira, dos reais riscos da Gripe A e da vacina (todas as vacinas têm um risco e acaba por ser uma questão de análise matemática), das cunhas que realmente existem (e que normalmente não são tão claras). Até as opiniões de Miguel Sousa Tavares — as verdadeiras opiniões — deixam de ser discutidas, para se afogarem num mar de indignação perante a frase falsa.
Bem, antes de nos pormos a gozar com todos os que acreditam nestas coisas, temos de aceitar que todos, mais tarde ou mais cedo, provavelmente com muita frequência, acreditamos em coisas que outros julgam totalmente descabidas. Todos acreditamos em coisas falsas. Todos nos enganamos. Mas podemos perguntar: porquê esta tendência, exacerbada pela Internet, para acreditar nestas histórias que, se virmos bem, merecem, pelo menos, uma certa dúvida?
Primeiro, temos tendência para acreditar em qualquer coisa que se adeqúe às nossas ideias («há muitas cunhas em Portugal», «os chineses estão a invadir-nos», «a Gripe A está mal contada»), desde que tenha uns pozinhos de verdade (um decreto de nomeação, a menção a «IRC», a cara duma senhora que até podia ser ministra...). Depois, há uma ideia generalizada (e muito «americana») que quem manda sabe mais do que quer contar ou que há poderes ocultos em todo o lado. Porquê? Porque assim deixamos de ter responsabilidade pelos problemas do país: a culpa é dos chineses, dos ministros, das farmacêuticas. Também gostamos de acreditar nas coisas que nos indignam, porque nos tornam parte do grupo daqueles que sabe o que está mal e porque está mal. Os «outros» são os culpados. Depois, também gostamos de nos ver como lúcidos, como pessoas que não caem nas patranhas «deles».
Há outras razões: as teorias da conspiração dão um certo sentido ao mundo e ficamos com a falsa sensação de «saber mais». Depois, há o medo de ser enganado e a desconfiança perante os outros: por alguma razão os portugueses gostam tanto destas histórias...
Qual a solução para não passarmos a vida a cair nestas histórias exemplares? Não me parece que haja uma solução fácil, mas podemos tentar ganhar uma grande dose de prudência e de dúvida metódica e, talvez, ter menos medo de «perder tempo» a confirmar aquilo que enviamos por email a todos os nossos contactos.
Todos nós estamos sujeitos a enganar-nos. Devemos tentar evitar, mas não devemos achar-nos mais espertos do que os outros por não cairmos nesta ou naquela patranha. Estaríamos a cair noutro erro. Mesmo com todo o cepticismo e prudência do mundo, vamos acabar sempre por acreditar numa ou outra coisa falsa e numa ou outra coisa totalmente parva. Mas, repito: convém tentar, a bem de evitarmos injustiças ou decisões mal tomadas. Às vezes, basta procurar como deve ser no Google ou, então, simplesmente, duvidar fortemente de tudo o que nos aparece em mensagens «em massa» ou que se ouve tantas vezes sem que ninguém comprove seja o que for — ou ainda que parece adequar-se tão bem às nossas ideias do mundo que é bom de mais ou mau de mais para ser verdade.
Para lá da genérica «dose de cepticismo saudável», há uma solução um pouco mais difícil, mas mais concreta: é tentarmos provar que aquilo em que acreditamos é falso (por outras palavras, «testar as nossas teorias»). Isto pode parecer estranho, mas é a base de toda a ciência — é, aliás, um bom resumo do método científico. Se tentarmos com toda a nossa força «falsear» qualquer coisa em que acreditamos, acontecerá uma de duas coisas: ou ficamos com uma base muito mais sólida para a nossa teoria (que, mesmo assim, nunca ficará definitivamente «provada», pois poderá ser suplantada por uma teoria mais completa) ou percebemos que a teoria é falsa. Quando isto acontece, devemos ficar contentes. Acreditar em algo que é falso é sempre mau, certo?
Em resumo: quando alguém nos contar alguma coisa que, de tão absurdo, nos deixa indignados, devemos tentar provar que esse exemplo é falso. Se for falso, não andamos a contar mentiras. Se não for falso, teremos razões fundadas para a indignação e podemos ganhar força para mudar o que está mal — em vez de andarmos atrás de fantasmas, cheios de indignação.
Afinal, nem sempre há fogo e muitas vezes nem sequer há fumo.
Por causa do acidente em Andorra, há imensas caixas de comentários pela internet fora onde os comentadores passam longas horas a discutir as condições de trabalho dos portugueses em Espanha, a arrogância dos espanhóis, a vida dos emigrantes portugueses em Espanha, a forma como as autoridades espanholas trataram o caso e por aí fora.
Ora, como pensava eu que era óbvio, Andorra não é em Espanha nem nunca foi. Estes comentadores criam uma realidade paralela só por preguiça. Estamos a falar dum país que está pertíssimo de nós, onde vivem imensos portugueses, que é um pequeno país ibérico que não faz parte de Espanha (como, sei lá, Portugal...). Mas pelos vistos há muita gente que perde tempo a escrever comentários na internet e não perde tempo a escrever "Andorra" no Google e a perceber que Andorra é independente desde o séc. XIII (mas quem é que procura coisas sobre as quais não tem dúvidas?).
Depois queixam-se quando algum americano diz que Portugal é uma província de Espanha. Eles pelo menos têm um oceano pelo meio. Nós não temos desculpa.
Nota: Sim, é verdade, Andorra tem dois chefes de Estado, um deles o Presidente de França e outro o Bispo de Urgell. Nalgumas caixas de comentários isto serve como prova que Andorra é parte de Espanha. Obviamente que sim: é parte daquela Espanha que tem um príncipe que se chama Sarkozy.
Por um lado, há quem diga que, com tanta atenção a tanta coisa, andamos todos desatentos. Por outro lado, há quem ache que, no fundo, nunca tivemos uma vida cultural tão rica (embora menos dependente das instituições culturais tradicionais, como o livro, a universidade, etc.).
O subtítulo deste blogue devia ser "só para curiosos e para pessoas que não se importam de ler posts que nunca mais acabam". Enfim. Devia começar a escrever mais no Twitter, para ver se me habituo.
Imaginem que temos mil pessoas para «arrumar». Onde as vamos pôr? Pôr as várias famílias (serão umas trezentas) em vivendas individuais, numa terra pequena, com muito espaço? No centro duma cidade, nuns cinco prédios? Ou ainda num subúrbio, num só prédio? Muitos diriam que o melhor é nas vivendas, no campo. É aí que poluirão menos e terão maior qualidade de vida. Quantos aos prédios, tanto se dá que seja nos subúrbios como no centro da cidade: é tudo confusão e se calhar quanto mais central pior.
É esta a visão de muitos que falam sobre as cidades. As cidades são sempre más: são sempre confusão, prisão, solidão. Para eles, a boa vida só pode ser a vida acertada aos ritmos da natureza e duma sociedade mais pequena (mais "humana", dizem).
Ora, pensem lá bem: arrumar mil pessoas numa cidade é mais ecológico do que pô-las em vivendas individuais. Não é muito difícil perceber porquê. Quanto mais concentradas estiverem as pessoas, menos deslocações haverá e menos recursos serão necessários para manter o mesmo número de pessoas (um prédio para 20 pessoas gasta menos do que 20 vivendas).
Depois, haverá mais massa crítica para inovação, desenvolvimento, cultura, escolhas (qualidade de vida). Mas sendo assim, dir-me-ão muitos, o melhor será o subúrbio, que ainda é mais concentrado e ainda tem mais massa crítica. Não é bem assim, as coisas são sempre mais complicadas: a concentração dos subúrbios é uma concentração mais nocturna que diurna, os empregos estão noutro lugar e falta diversidade de funções e de espaços.
Um centro de cidade com muita população, empregos, espaços variados, massa crítica para que surjam coisas novas: isso é aquilo que faz a cidade, quanto a mim, o melhor sítio para se viver. Uma cidade concentrada é uma cidade mais viva e mais saudável (e mais ecológica, por estranho que pareça).
Claro que, aqui em Lisboa, os preços das casas e tudo o mais impedem que se possa falar dum centro atractivo. Mas não nos enganemos: o melhor sítio para se viver é exactamente em Lisboa. Qualidade de vida implica escolhas, não implica o silêncio da natureza em redor duma casa isolada.
E a liberdade?
Há aqui outra questão de que nos esquecemos muitas vezes ao falar das cidades e de tudo isto: a chamada liberdade das pessoas. Falei de «arrumar» mil pessoas e é assim que muitas vezes se trata a questão de onde colocar as populações – como coisas a arrumar. Ora, cada pessoa vive onde quer ou onde pode. O ideal é dar a possibilidade a que todos vivam onde querem, desde que estejam preparados para as consequências desse «querer». Temos de perceber que as escolhas, muitas vezes, são marcadas por ideias mais ou menos acertadas e mais ou menos gerais e por cálculos muito complexos e pessoais («hum, se calhar é melhor viver um pouco mais longe, mas pagar menos por mês»; «quero viver aqui porque as escolas são melhores»; «não me importo de estar no trânsito, quero é um lugar sossegado»). É por isso que não devemos obrigar ninguém nem imaginar que com políticas acertadas tudo iria ao lugar. As pessoas têm mitos e devaneios que têm um impacto profundo na forma como vivem e onde querem viver (e, consequentemente, um impacto na forma como todos vivemos). Não nos devemos queixar disso nem desejar um mundo onde os outros obedecessem cegamente aos nossos gostos.
O que fazer? Trocar opiniões, dizer o que achamos, mostrar por que razão viver aqui e não ali é melhor e tentar influenciar os outros nas suas opções, sem os odiar ou desejar mal se não escolherem essas opções tão inteligentes que nós sabemos que eles deviam tomar. A liberdade é isso: a liberdade de influenciar e a liberdade de decidir, seguindo ou não as opiniões dos outros, depois de pensarmos em tudo o que conta para nós.
Assim, deixem-me tentar influenciar: viver bem é viver em Lisboa, não nos subúrbios e não numa vila ou aldeia do interior (embora esta última opção tenha também muito a seu favor). Viver numa casa mais pequena, perto do emprego, é melhor do que numa casa maior, longe do emprego. Mas, como disse, sei perfeitamente que há muitos mais factores nisto tudo: as casas são caras, é bom ter os filhos perto dos avós, entre outras questões.
Depois, muitas pessoas nem precisam assim tanto da inovação, da cultura, dos dias de Verão nas esplanadas de Lisboa ou nas inúmeras lojas, livrarias e coisas diferentes que há nas cidades. Para eles, tanto se lhes dá que haja ou não «massa crítica». Para eles, há muita massa crítica nos centros comerciais dos subúrbios. Não os censuro: também vou a centros comerciais. E há muita gente que diria que eu próprio vivo num subúrbio (claro que não sabem o que é um subúrbio).
E, sim, é bom estar na calma duma vivenda longe da cidade. Mas só às vezes. Gosto de viver na cidade, que querem que faça. Pode ser que com a idade passe.
Um dos aspectos do chamado «horror urbano» (esse complexo de ideias vagas e muitas vezes falsas que criam a impressão que as cidades são más) é a sensação de que as pessoas, na cidade, são antipáticas e pouco civilizadas por natureza. Ora, foi na cidade que surgiram as noções de boa educação («urbanidade», precisamente). Mas muitas pessoas que se acham muito civilizadas não têm nada dessa urbanidade. Para ser «urbano» é preciso saber viver com os outros, com a multidão, com as pessoas diferentes. Ou seja, é uma qualidade que todos podemos ter, quer estejamos na cidade quer não, mas que é exercida e necessária principalmente na cidade.
Para ser urbano, é preciso encontrar formas de fazer o que gostamos, deixando de julgar os outros por aquilo que gostam de fazer. Para ser urbano, é preciso ouvir e ver os outros, mas aceitar que eles não tomam as mesmas opções, não têm as mesmas origens, as mesmas formas de avaliar o mundo. Para ser urbano é preciso refrear o horror ao ruído diferente, ao aspecto mau, à existência de certas características humanas (o sovaco, por exemplo). É preciso engolir em seco e perceber que se não gosto dos dentes podres deste gajo ao meu lado, ele também poderá não gostar da minha altivez ao olhar para os dentes dele.
Mais do que «encontro entre culturas», que é muito engraçado, a cidade é encontro entre classes sociais, entre profissões, entre gostos, entre opiniões, entre certezas absolutas completamente diferentes e entre pessoas que, se pudessem escolher, não viveriam perto umas das outras. Por isso, é preciso que a cidade seja civilizada, que aceite, que se procure aperfeiçoar com todos, não contra todos. É preciso mais conversas desinteressadas no metro e no autocarro, mas respeito por quem quer ficar a olhar para o que passa ou «apenas» a ler. É preciso menos carros, mas também respeito por quem tem carro. É preciso não andarmos todos uns contra os outros, a avaliarmo-nos constantemente, a achar que a cidade é péssima porque tem, vejam lá bem, pessoas.
2.
Os portugueses, por serem um povo só recentemente urbano, ainda vêm para a cidade com a atitude das aldeias: todos os outros são alvos de chacota, de julgamento, de avaliação de lábios apertados e de olhos semicerrados. E mesmo em classes mais «urbanas», como o nosso país é pequeno, vê-se esta forma sobranceira de olhar para os outros. Quantas «tias» de Lisboa não andam pelas ruas sempre com a sensação de que estão no meio da gentinha e que não deviam estar sujeitas àquelas manifestações de estupidez? E quanta gente não olha para essas mesmas senhoras e as avaliam e desprezam, porque afinal não gostam de «tias», de pessoas que vivem em certos bairros. (São dois exemplos entre muitos outros.)
Assim, aldeões que avaliam os outros mas que não têm tempo para avaliar tanta gente, andamos frustrados e secretamente convencidos que as cidades têm qualquer coisa contra nós. O ideal, para os portugueses, é viver na sua casinha, à sua maneira, sem o inferno dos outros em redor ou só com as três ou quatro famílias fáceis de avaliar e pôr no lugar que há nas aldeias mais pequenas.
Quanto ao civismo, há ou não há cada vez menos? Talvez, não sei, não estou cá assim há tanto tempo, mas já vi grandes faltas de civismo por parte de pessoas que gritam aos ouvidos das outras que «hoje há uma grande falta de civismo». O melhor é deixarmos o passado (idealizado ou não) para traz e tratarmos de ser cívicos ou civilizados hoje, cada um de nós, independentemente do que os outros fazem e independentemente das falhas próprias (todos somos mal-educados em certas situações; temos de aceitar este facto e seguir em frente, melhorando em pequenos passos). A atitude errada é abandonarmo-nos ao fácil ("todos são mal-educados, eu também sou") ou armarmo-nos em puros ("sou o único bem-educado, odeio os outros").
No fundo, é ser urbano: criarmo-nos a nós próprios, com as escolhas e forma de ser, e deixar os outros viverem, com as escolhas que fizeram ou com as vidas que puderam ter. Nada disto impede a comunidade de diferentes que são as cidades e nada disto impede a coesão social -- só a promove.
Por fim, onde fica, no meio disto tudo, a beleza? Temos de a procurar, encontrara o belo e o bom e torná-lo visível (cf. fim das Cidades Invisíveis). Sem andar a ralhar a torto e a direito com os outros.
Quando tenho um livro para ler, o que sinto é gulodice. Por exemplo, tenho aqui ao lado A Tale of Two Cities, que nunca li, e que me apetece ler agora, de forma absurda, apesar de ter comprado o livro em 1999 (no século passado!). Quero ler, olho para as páginas, e vem-me água à boca ao pensar no que tenho à frente, nas personagens, nas histórias, nas palavras, no mundo inteiro que me vai aparecer de repente.
Sinto a mesma gulodice perante as cidades: as ruas, os recantos, as histórias, as pessoas, as linhas de metro, as luzes nas janelas, os sons — e tudo o resto. Gosto de ler como gosto de mergulhar em cidades, reais ou imaginárias. É tudo uma questão de gulodice.
Há livros e cidades que são propícios para esta gulodice — Londres e Dickens, para começar. Depois, há outros livros que apelam mais ao prazer de sentir as linhas que percorrem o mundo, em que este se divide, livros que são pérolas, diamantes, que arrasam o mundo e mostram o avesso, a estrutura, a simplicidade que está por trás e que é o objecto verdadeiro da inteligência (e não tanto da gulodice) — vem-me à cabeça Borges. Em todas as cidades também há disto, nas avenidas principais, nos rios, nos mapas do metro, no nome e nos monumentos, em tudo o que realça e faz perceber a cidade num golpe de inteligência: o esqueleto das cidades, o próprio nome «cidade» e não o nome próprio de cada uma delas: «Lisboa», «Londres», «Liubliana». Mas todas as cidades resvalam para a tal profusão saborosa, mesmo as que se criam como planos exactos (lembro-me de Brasília, da Baixa, do Parque das Nações — tudo sítios que mais tarde ou mais cedo são tudo menos o plano inicial). E os livros, mesmo os que parecem pérolas de inteligência depurada, também são sempre mais do que parecem. Um conto de Borges arrasa o mundo e de repente enreda-se em livros que não existem, bibliotecas infinitas, personagens reais, enciclopédias imaginárias e por aí fora. As Cidades Imaginárias de Calvino são uma espécie de culminar dos dois tipos de livros/cidades, com as cidades destiladas nas suas várias formas, até criar uma radiografia da profusão urbana, invocando-a de forma exemplar — e é por isso que acho o livro saboroso.
Entre a gulodice daquilo que adivinhamos e as linhas gerais que tentamos compreender, estão também as pessoas. Tentamos categorizar, compreender, identificar todas as pessoas que conhecemos — é natural e essencial. Tentamos perceber os traços gerais, saber qual é a descrição resumida em que todos os nossos amigos e conhecidos cabem, qual o seu título, o seu género: será que aquela pessoa é um romance, uma pequena vila, um livro de poesia, uma metrópole, um policial, um bairro, uma casa sempre igual ao pé da praia, umas águas-furtadas no centro da cidade? Ora, obviamente, todos somos tudo isso. Isso, e muito mais: temos sempre recantos esconsos, coisas que nem imaginamos, histórias, ruelas, personagens secundárias que quase não aparecem mas explicam muito, bairros malditos, capítulos a mais, palavras que só lá estão pelo prazer de lá estarem, linhas de metro que não vão dar a lado nenhum, noites imensas e praças calmas que ninguém conhece, com jardins e um café calmo, ao fim da tarde.
Já que, perante a falta de novidade duma efeméride de 40 anos, a RTP, o DN, etc. decidiram apostar nas teorias da conspiração, porque não preparar já documentários para provarmos ao mundo que o autocarro nunca caiu em Entre-os-Rios, que o 25 de Abril numa ocorreu e que Portugal, afinal, ainda é uma monarquia? Para não falar do facto comprovado de que D. Afonso Henriques, afinal, chamava-se Carla e vivia em Barcelos.
Já agora: para quando uma reportagem sobre os vários indícios de que afinal a Terra é plana?